Cresci na Vila Mariana, mais precisamente na Rua Padre Machado. Minha rua é travessa da Domingos de Moraes, aonde está instalado há mais de um século o Colégio Arquidiocesano de São Paulo, onde estudei e tive educação católica apostólica romana, garantida pelos padres rígidos, austeros e que veneravam o exercício medieval do puxar de orelhas. Marista, o Arqui não pecava pela qualidade da formação cultural de seus mais de 3.000 alunos. Tínhamos teatro, cinema, dança, música, fanfarra e até coral, além, obviamente do catecismo deliciooooso do Irmão Segismundo (muitas vezes em latiiiiiiim). Fui expulso 2 vezes! Pudera, o homem marcava as aulas para as 7:00h de domingo e antes da missa, a qual éramos obrigados a ir. Perdia ponto quem não freqüentava. Sério!
Lembro de ter encenado de Shakespeare a Saint Exupéry nas peças de fim de ano. Fiz música e aprendi instrumentos de sopro e percussão, como o xilofone e marimba. Até hoje arrisco minha flauta doce para desespero do povo lá de casa, que não tem ouvidos tão apurados como o meu.
A Padre Machado ficava a 4 quarteirões do Museu Lasar Segall, que de tanto minha mãe nos fazer freqüentar,eu sabia toda sua história, conhecia toda sua obra exposta e um dia cheguei até a achar que o homem era meu tio.
Toda semana tinha uma programação diferente e minha mãe amava a cinemacoteca do museu, principalmente os filmes italianos. Devo ter visto umas 20 vezes a película “Dio come ti amo!”, acabei por decorar a letra e cantava a música melhor que Gigliola Cinqueti. O filme, de direção de Miguel Iglesias, derretia pela tela da sala junto com as lágrimas convulsivas de minha mãe. Fiquei encantado, como sou até hoje, com os grandes diretores italianos. E os filmes franceses? “Vivre sa vie” e “Pierrot le fou” de Godard, eram muito pra um menino de 10 anos, mas vai dizer isso pra Dona Edivaldina, que sempre fez Aliança Francesa pra se sentir mais perto da França, que por sinal ficava há duas quadras de casa. Não França, a Aliança – na Altino Arantes. Foi na cinemacoteca, dessa forma, que me apaixonei por um doido chamado Glauber Rocha e suas terras em transe. Identifiquei-me com o cara, sabeseládeusporque? Freqüentávamos, do mesmo modo, os saraus de sábado do museu onde conheci a poesia, a prosa e uma tal de Lispector, um outro Vinícius, o Pessoa, um tal de Assis, assim como outros.
Bem perto, na Paulista, passeavámos sempre no MASP, até porque, Dr. Carlos, o oftamologista que operou meus 3 irmãos da vista por conta do estrabismo, tinha consultório na Peixoto Gomide, coladinho. Achava aquele prédio despropositado, sem nexo. Chamava de caixa de fósforo.
Enfim, aquilo pra mim era tudo normal, trivial, fazia parte do cotidiano e às vezes até enchia o saco. Pensa bem, ficar de saco cheio disso tudo é até sacrilégio, né não?
Pensando bem, não é que Dona Dina soube dar mesmo uma boa educação cultural para seus 4 filhos? Depois dizem que sou saudosista.
Ah! Sem esquecer que tínhamos na TV a Vila Sésamo e Daniel Azulay.
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Parabéns, o blog ficou lindo!
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Rubi. Jóia Rara!
Beijo