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Minhas lembranças de infância me remetem, até de forma prodiga, a imagens do ano de 1972 no bairro da Graça em Salvador. Lembro-me de uma escadaria que amava subir em dias de chuva e contra a enxurrada, com meu pai segurando minha fralda pela bunda enquanto eu cantava: “ti-tá titatá, ti-tá titatá… Lembro-me perfeitamente disso, como se fosse hoje. Como lembro de minha prima Mônica vestida de baiana, de meu avô Edvaldo me levando pra nadar, de meu tio Dilsinho e sua cerveja, meu tio Raimundão, minha tia e escritora Eneida Leal , sempre a me ensinar besteiras , os meninos de Dona Rosa e Seu Aristídes, da praia da Barra, do picolé de manga e de umbu, de minha mãe “sempre rindo e sempre cantado… na base da vã valentia” (como já cantava Gil) e da casa sempre cheia. Éramos muito simples, pobres, extremamente felizes. Mas vivíamos sobre a égide de uma possibilidade que transtornava a casa: O “se”!.

E se descobrissem que meu pai vivia clandestino após ter sido membro atuante do PCB? Se descobrissem que meu pai era ligado a pessoas como Wladimir Pomar e João Amazonas? Que seu irmão, meu tio Joaquim e sua esposa, transmitiam um programa radialístico do Partidão de uma transmissor de AM da Albânia para os rádios no Brasil? Se percebessem que foi ele umas das pessoas que fez treinamento de tática de guerrilha na China e na Rússia? E que foi meu pai o portador de muito dinheiro, trazido da China pela Europa (ficou escondido por meses em Paris), para financiar as operações de guerrilha no Araguaia, onde depois de voltar se refugiou e quase morreu? E se descobrissem que naquela época ele usava o codinome Rafael? E se descobrissem que ele sobreviveu ao Massacre do Araguaia e que foi pra Salvador liderar movimentos estudantis, onde conheceu minha mãe, uma simples e bela estudante de letras da Universidade Federal? E se descobrissem que tudo isso gerou um primogênito, André, e dois anos depois os gêmeos: Guido e Mauro?

Pois descobriram!
Após torturar e matar uma colega em Fortaleza, todos os companheiros da moça foram descobertos, inclusive meu pai. Um anjo enviou um aviso. E das minhas lembranças eu só tenho a imagem do desespero e medo de quem abandona seu lar correndo e deixa pra trás bens, família, amigos, profissão, e uma linda história de uma família que tinha acabado de ser constituída. Lembro do frio, até hoje sinto muito frio. Fugimos pra São Paulo, onde vivia a família de meu pai, com a roupa do corpo. Vocês devem imaginar como são as roupas do corpo de uma criança em pleno verão de Salvador. Eu tinha quase 3 anos e os gêmeos alguns meses. Conhecemos no percurso pra grande cidade a fome, o frio e o pavor. Meu pai conseguiu no ônibus alguns cobertores para nos aquecer e comida. Foram 30 inacabáveis horas de estrada.
Enquanto isso meu tio, um jovem estudante de administração, era torturado em lugar de meu pai em Salvador. Ele nunca contou nada.
Em São Paulo, documentos falsos foram providenciados por amigos. Documentos que atestavam o nosso rompimento com o nosso passado soteropolitano. A partir daquela data passamos a ser uma família que tinha vindo do Rio de Janeiro. Meu pai continuava a ser o clandestino Rafael, minha mãe se tornou uma moça de Tres Rios-RJ, eu havia nascido na capital do Rio de Janeiro e os gêmeos em São Paulo (nossos documentos atestam até hoje esse embuste necessário).
Crescemos assim, eu e meus irmãos, acreditando que nossa vida começou desse jeito: num rompante de desespero. Nossos pais nunca contaram nada para nós, nem podiam, porque poderíamos dar com a língua nos dentes. Então sempre acreditamos que éramos uma família feliz, comum, simples e cheia de princípios, cultura, mas com um vazio indecifrável para crianças sem origem. Crescemos achando que não possuíamos família do lado materno, que ficou em Salvador. Engraçado é que achávamos aquela coisa toda completamente normal. A única coisa que não entendia era o porquê de tanto medo, esse que vimos por anos estampados nos rostos de nossos pais. Juntamente com o medo havia a desconfiança, a insegurança, o pânico, a tristeza contida, agonias que deixaram cicatrizes pra vida toda.
Em 1978, foi fundado no Rio de Janeiro o Comitê Brasileiro pela Anistia – uma ampla frente de várias entidades da sociedade civil, com sede na Associação Brasileira de Imprensa.
Diante desses movimentos, o governo encaminhou ao Congresso o seu projeto, em junho de 1979. Antes, ele já havia rejeitado a proposta do partido de oposição MDB, que previa a anistia ampla, geral e irrestrita. O projeto governista atendia apenas parte do apelo nacional, porque excluía os condenados por terrorismo e favorecia os militares, incluindo os responsáveis pelas práticas de tortura. No dia da votação, em Brasília, cerca de três mil pessoas participavam de um ato público pela anistia irrestrita. Dentro do Congresso Nacional, as galerias eram tomadas pelos populares que vaiavam cada discurso dos representantes da Arena – partido do governo. Por 206 votos contra 201, foi aprovada a anistia “aos crimes políticos praticados por motivação política.”
Acordei num dia normal, pronto pra fazer minha lição de casa. Tinha 9 anos de idade. Minha mãe chorava e berrava de alegria, com minha irmã Lucila no colo. Meu pai chegou com meu tio e se abraçaram longamente. Não entendi nada! Vários telefonemas pipocaram a todo instante e me puseram pra falar com um monte de gente que diziam ser meus tios, avôs, primos, madrinha, padrinho. Com os dias foram chegando cartas com fotos, quadros, imagens, lembranças a serem reconstituídas de um zero.
Ganhei com a anistia uma nova realidade, uma nova vida. O que o Brasil ainda não entendeu é que não só os perseguidos políticos foram anistiados, mas seus filhos e mulheres também, pois mesmo não tendo feito parte de nenhum movimento, éramos filhos da ditadura, do medo, e estávamos sendo libertados. Mas já era tarde, porque o medo já havia se instalado em nós como parte integrante de nosso ser.
Em pouco tempo já intui minha real naturalidade baiana, sem que meus pais me dissessem nada. Em dezembro de 1979 aportamos no aeroporto 2 de julho em Salvador, num vôo da Cruzeiro do Sul saído de Congonhas onde mais de 30 pessoas que não conhecia nos esperavam em festa e lágrimas. Eram eles, os nossos!
Na Vista Maré, de frente para os Alagados, em casa de meu avô, foi dita a frase que deu início a minha nova vida: “Meu neto, agora você está em casa”. Um cervejada regada a moqueca de arraia, muito riso, choro, MPB, selou o início do que deveria ser um tempo de paz e liberdade.
Em 28 de agosto, Figueiredo sancionou a Lei nº 6.683, de iniciativa do governo e aprovada pelo Congresso, anistiando todos os cidadãos punidos por atos de exceção desde 9 de abril de 1964, data da edição do AI-1. O benefício atingiu estudantes, professores e cientistas afastados das instituições de ensino e pesquisa nos anos anteriores. Entretanto, o reaproveitamento de servidores civis e militares ficou subordinado à decisão de comissões especiais criadas no âmbito dos respectivos ministérios para estudar cada caso.
Outra restrição dizia respeito às pessoas condenadas pelos chamados “crimes de sangue”, atos terroristas cometidos no período em que grupos de esquerda usaram a luta armada para combater o regime militar. Segundo o Superior Tribunal Militar (STM), havia então 52 presos políticos, dos quais 17 foram imediatamente libertados e 35 permaneceram à espera de uma análise mais demorada dos seus processos. Entre presos, cassados, banidos, exilados ou simplesmente destituídos dos seus empregos, a Lei de Anistia beneficiou 4.650 pessoas, entre as quais os ex-governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes, e os ex-líderes estudantis Vladimir Palmeira e José Dirceu.
Por tudo isso o Idéia de Jerico se reserva ao direito de todo ano, durante os meses de junho a agosto (meses de votação, aprovação e promulgação da Lei de Anistia), para lembrar dessa página de nossa história.

Penso alegremente que um dia já chamei meu pai de “paínho” e minha mãe de “maínha”. Com a criação paulistana misturada com a de Minas, que me adotou na adolescência, perdi também meu sotaque, assim como minha naturalidade legal, já que minha identidade me aponta como um legítimo carioca. Deus e meu avô sabem que sempre serei um bom, orgulhoso e saudoso soteropolitano.

Fonte consultada: O Estado de São Paulo Viagem digital pelo século XX Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC
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Esse texto e essa música são dedicados aos meus pais, irmãos, a toda minha família que vive em Salvador, aos que aqui já não mais estão, aos amigos da família que torturados foram e aos que feneceram nos porões da ditadura. E àqueles que tiveram suas vidas modificadas por uma página vergonhosa de nossa história e que também, como eu, de certa forma foram anistiados.